2026-09-17
Nem sempre nos afeiçoamos às personagens que têm razão. Podemos seguir com curiosidade alguém que erra, desde que compreendamos os seus motivos. O romance tem essa vantagem: aproximar por dentro um comportamento que julgaríamos depressa no quotidiano.
O universo de Camille Valden dá lugar a essas zonas intermédias. As personagens querem proteger e podem sufocar; desejam ser honestas e continuam a adiar uma conversa. A evolução mede-se menos em grandes declarações do que em mudanças por vezes modestas.
Essa atenção preserva também a autonomia das personagens secundárias. Uma amiga, um familiar ou um vizinho não existem apenas para ajudar o protagonista. As suas expectativas podem complicar a narrativa, abri-la e obrigá-la a mudar de direção.
Ler torna-se uma proximidade cheia de nuances. Reconhecemos impulsos, irritamo-nos com algumas escolhas e descobrimos outra maneira de compreender quem pensávamos já conhecer.